Como brigar na internet (corretamente)

Se você nunca quis brigar no Facebook tem algo errado com você. Brincadeira à parte, quem nunca leu uma bobagem na internet e precisou conter a ânsia de sair logo criticando? As redes sociais, com seu infinito potencial para criar conexões incríveis entre os seres humanos, são também um lugar propício para bate-boca. Eu já tive que me segurar muitas vezes. E já parti para a discussão também. Mas acho que dá para conversar civilizadamente e tirar proveito dessa loucura toda.

O escritor e professor Mortimer Adler acreditava que para que qualquer discussão fosse produtiva, os debatentes deveriam seguir algumas regras básicas de educação e argumentação. Ele chamou esse conjunto de orientações essenciais de “regras de etiqueta intelectual”. 

Sabe onde está faltando isso aí? No Facebook, no YouTube, nos comentários do G1, na internet em geral.

Adler escreveu seu mini manual em 1940, no livro Como Ler Livros. Ele queria ajudar os leitores a terem uma “discussão” frutífera sobre o conteúdo proposto por escritores em suas obras. As ideias dele, entretanto, podem ser transpostas para a internet sem qualquer problema, e estão mais atuais do que nunca.

Vamos a elas:

Como saber se você pode brigar 

Ok. Você leu aquele textão do Facebook defendendo alguma ideia que você julga absurda e, em um piscar de olhos, seus dedos já estão furiosamente digitando um contra argumento. Calma! Antes de começar uma briga (ou melhor, uma discussão civilizada), analise se as regras de etiqueta intelectual foram cumpridas. 

Primeira regra: “Não critique até que tenha completado o delineamento e a interpretação do livro. (Não diga que concorda, discorda ou que suspende julgamento até que tenha dito entendi)”, explica Adler. No nosso caso, troque “livro” por “post polêmico”. Depois, tenha certeza de que você realmente compreendeu o que foi dito antes de começar a argumentação contrária. Nem preciso dizer que não vale comentar (discordando ou concordando!) sem ter lido tudo, não é? 

Segunda regra: “Não discorde de maneira competitiva”. Ou seja, não inicie uma briga (ops, discussão civilizada) para ganhar ou para humilhar quem você está criticando. Discorde para esclarecer algo, para entender o ponto de vista do outro, para aprender mais ou até mesmo para manter a conversa rolando, já que diferenças nem sempre são negativas. Mas nunca para competir.

Terceira regra:Demonstre que reconhece a diferença entre conhecimento e opinião pessoal apresentando boas razões para qualquer julgamento crítico que venha fazer”. Gente, esse Adler era danadinho mesmo! Em 1940 o cara já estava ligado no que viemos a chamar de “pós-verdade” e “fatos alternativos”. Aqui são dois passos. Você tem que separar o que no post polêmico é a opinião do autor e o que é um dado comprovável. Isso vai fazer diferença na hora de bolar a resposta, mas nem sempre é óbvio. Muitos soltam suas ideias sem dizer “eu acho” antes, fazendo parecer que elas são a mais pura realidade. Em seguida, você tem que fazer o mesmo no seu comentário, mostrando o que é um sentimento seu e o que é um fato.  

Como criticar alguém

Se você acha que passou bem pelas regras acima, maravilha, pode soltar a mão na resposta. Adler também elaborou orientações sobre como mostrar um argumento contrário para alguém.

Para ele, o autor de um conteúdo só pode estar errado de quatro maneiras. Ou ele está desinformado, ou está mal informado, ou traçou uma linha de raciocínio errada ou deu uma explicação incompleta. Só. Perceba que, com isso, saímos do mundo do achismo, da raiva, do fanatismo, enfim, das emoções inflamadas. A conversa agora é sobre dados reais. Todas as formas de criticar alguém devem estar nessas categorias. Caso não, seu argumento será emocional e não intelectual. 

Se só existem quatro formas de estar errado, só temos também quatro formas de criticar. Adler dá o caminho:

Mostre onde o autor está desinformado – Se o dono do post polêmico disser, por exemplo, que lugar de mulher é na cozinha porque elas gostam mais de cuidar da casa, mostre essa pesquisa da ONU sobre trabalho doméstico. Ou pergunte a ele se a afirmação, ao invés de um dado, não seria uma opinião dele.

Mostre onde o autor está mal informado – Eu acabei de ver uma foto de Trump jovem com seus pais vestidos de KKK. Se eu tivesse postado essa imagem revoltante você poderia dizer que eu estou com uma informação errada, que o retrato é falso e que a fonte onde eu a encontrei (o Twitter de um desconhecido) provavelmente não é confiável.

Mostre onde o autor foi ilógico – É o famoso “lé com cré”. Diga como a linha de raciocínio (tal ato leva a tal reação por tal motivo) não procede. Por exemplo, “um grande fluxo de imigração em uma área causa aumento da criminalidade naquele local”. Isso já foi desmentido.
 
Mostre onde a análise ou explicação do autor está incompleta – Às vezes, a informação está errada porque não está inteira ou é um recorte de um contexto maior. Isso acontece muito com estatísticas, das quais é utilizada apenas a parte que interessa para o argumento. Fora de uma perspectiva, alguns dados podem ter interpretações bem diferentes.
 
Se você não puder discordar utilizando um ou mais desses métodos, adivinha só, de novo seu problema é emocional e não racional. 

O escritor abre uma exceção, entretanto. Caso você, o crítico, desconfie de que o autor incorreu em algum dos problemas acima, mas não tiver dados para mostrar-lhe esse erro, você pode "suspender o julgamento". Você pode nem concordar, nem discordar, pode ficar "desconfiado em cima do muro". Mas neste caso não discuta. Seja educado.

Não brigue com qualquer um

O escritor elaborou essas ideias para ajudar o leitor a discutir intelectualmente. As ideias são voltadas para quem vai contra argumentar, rebater um conteúdo. Eu acho, entretanto, que talvez possamos espelhar as regras de Adler e, desta forma, usarmos estas orientações para decidirmos com quem vamos brigar.

 Funcionaria assim: qualquer postagem, tuite, artigo, que não cumprissem as regras básicas de “etiqueta intelectual” ou que não passem razoavelmente no teste dos quatro erros não mereceriam resposta. Ou seja, aquele textão tão irritante do Facebook não merece qualquer atenção se não tiver sido escrito com o mínimo de educação e não contiver dados que possam ser comprovados ou rebatidos. 

Eu acredito que, seguindo as ideias de Adler, e adotando algumas extrapolações, brigar na internet passaria a ser um exercício de argumentação e aprendizado bem interessante.

Vamos brigar!


(Lembrando que abuso, bullying e discurso de ódio não devem ser discutidos, mas denunciados). 
 

 


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